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Ponto de vista privilegiado para apreciar o mundo

Na aula passada (28/08), falei sobre como os impressionistas lidavam com as mudanças sociais e tecnológicas do século XIX e início do século XX. Vejam essas imagens (clique nelas para aumentá-las):

A Canoa sobre o Epte, Monet

A Canoa sobre o Epte, Monet (1890) Óleo sobre tela,133 x 145 cm, MASP

O limite da tela corta a canoa e a figura feminina que segura o remo.  O ponto de vista do observador, mesmo que ele esteja centralizado em relação à pintura, não poderá ser central à canoa e às figuras femininas. A pintura, nesse sentido, se assemelha à uma fotografia que registra um segundo da existência, congelando uma ação.

Quatro bailarinas em cena, Degas (1890). Óleo sobre tela, 72 x 92 cm. MASP

Quatro bailarinas em cena, Degas (1890). Óleo sobre tela, 72 x 92 cm. MASP

Algo semelhante ocorre na obra de Degas. O título do quadro é “Quatro bailarinas em cena”. Se entendermos os limites do quadro como a cena, apenas três bailarinas estão “em cena”. A quarta, vestindo azul, escapa de nossa visão.  A bailarina ao fundo, à direita, tem o braço para o alto, mas ele não está nítido, se misturando com o fundo. A falta de definição do quadro e a “fuga” das figuras pode também ser relacionada à técnica fotográfica, que, ao congelar o movimento,  registra uma imagem “borrada”, que acentua sua percepção.

Que conclusão podemos tirar? Com a fotografia – uma inovação tecnológica com implicações sociais – o artista perdia o privilégio de retratista do mundo. Pode-se entender que ele perdia sua posição social, que o colocava num ponto de vista privilegiado, central, organizador do mundo. Os dois quadros nos levam a crer que o fato não impedia os jovens artistas do fim do século XIX e início do século XX de continuar trabalhando. Sua visão não era canônica, ideal, porém isso não era problema. Encontram-se novos motivos para pintar. Os limites da visão do pintor e do observador (implícito) revelam a consciência da existência de um mundo maior do que aquele dentro dos limites do quadro.

Para ler mais sobre isso: Schapiro, Meyer. Mondrian, a dimensão humana da pintura abstrata. São Paulo: Cosac & Naify, 2001.

Links:

Coleção do MASP (Museu de Arte de São Paulo)